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Freud: Até onde a série da Netflix é fiel aos fatos?


Se você já conhecia algo sobre o “pai da Psicanálise” e assistiu à nova série Freud, da Netflix, deve ter ficado bem confuso (a). Quais elementos são reais? Quais fazem parte apenas da ficção?
ALERTA DE SPOILERS LEVES: Se você não quiser saber nada sobre a série antes de assistir, assista primeiro e volte aqui mais tarde.
A série retrata o jovem Freud recém-formado em medicina, usuário de cocaína e residente numa clínica psiquiátrica chefiada por Theodor Meynert, em Viena.
Após estudar hipnose com Charcot, na França, Freud volta fascinado pela “cura” de sintomas através de simples comandos de sugestão. A partir de então, começa a desenvolver teorias que atestam que os problemas mentais não têm causas apenas no cérebro, como se acreditava, mas sim, numa estrutura psíquica chamada de inconsciente.
Suas ideias foram inicialmente rebatidas pela sociedade da época, bem como por Meynert, seu superior.
Entretanto, um assassinato sob condições incomuns chama a atenção de todos. Um policial e veterano de guerra chamado Alfred Kiss, a médium Fleur Salomé e Freud unem suas habilidades para investigar quem é o serial killer que está por trás das mortes horrendas que rondam a cidade de Viena.
As descobertas do grupo levam a uma conspiração criminosa envolvendo uma seita secreta, motivada por questões políticas.
Em meio a esse caos, Freud prova suas teorias sobre o inconsciente, à medida que trata seus dois companheiros com sessões de hipnoterapia.
Agora, vamos comparar a trama da série com os fatos sobre a biografia de Freud:

Freud usava cocaína

Sim, ele não só usava como foi um dos pioneiros no uso de cocaína. A série retrata Freud misturando cocaína com água e bebendo. Na verdade, ele a injetava.
Interassava-se pelo potencial de melhora do estado depressivo e estudava sua utilização para fazer com que as pessoas superassem o doloroso processo de abstinência da morfina.
Chegou a receitar cocaína para seu amigo Ernest Fleischl-Marxow, que acabou viciado tanto em cocaína quanto em morfina, suicidando-se pouco tempo depois.
A observação de resultados negativos, como a dependência da droga, e as críticas de outros estudiosos fizeram com que Freud a abandonasse.

Freud não se envolvia sexualmente com seus pacientes

Na realidade, Joseph Breuer, que também aparece na série como amigo de Freud, transfere Ana O. (nome fictício dado a Bertha Pappenheim) para os cuidados de Freud, após ceder à paixão de sua paciente.
Freud percebe que esse amor também se manifesta por ele, mas ao invés de ceder, como seu amigo, utiliza o sentimento de Ana O. como estudo da relação entre o analisando e seu psicanalista.
Surge então o conceito de “transferência”, que pode se desenrolar das mais variadas formas (inclusive sentimentos negativos), mas é de extrema importância para a condução do tratamento.

Freud era bastante cético em relação ao sobrenatural e às religiões

Na série, Freud mostra-se bastante intrigado com a mediunidade de Fleur (personagem que nunca existiu na vida real). A Psicanálise, todavia, assim como seu fundador, não acredita em nada sobrenatural, mas também recomenda não interferir nas crenças dos pacientes. Nas obras “O mal-estar na civilização” e “O futuro de uma ilusão”, Freud descreve as religiões como um “delírio coletivo”, necessário à manutenção da ordem da sociedade.

Meynert não odiava Freud

O superior de Freud na clínica psiquiátrica onde estagiou gostava muito de seu pupilo. Apesar de não concordar com as suas teorias sobre o inconsciente, nunca o demitiu, como mostra a série.

Freud nunca escreveu um trabalho chamado “O poder do hipnotismo”

Sua obra mais notável, que deu luz à Psicanálise, chama-se “A Interpretação dos Sonhos”, no qual remove o caráter místico do fenômeno e descreve técnicas para extrair o conteúdo inconsciente que deixamos passar despercebidos nas lembranças das nossas noites de sono.

Freud nunca participou de invetigações policiais

Mas o método terapêutico da Psicanálise em muito se assemelha a uma investigação. Afinal, a partir de tudo o que o paciente traz na clínica (fala, gestos, sonhos, atos falhos e chistes, ou seja, piadas), o psicanalista questiona, recolhe pistas e gera hipóteses que levarão o analisando a refletir sobre seus próprios conflitos para encontrar a própria cura.
Em resumo, a série é ótima ao que se propõe fazer: entreter. Mas guarda poucos pontos em comum com a realidade. Inclusive, o próprio personagem de Freud é deixado em segundo plano e raros são os momentos em que ele ou seus conceitos se destacam mais do que a personagem Fleur Salomé.
Para conhecer um pouco mais da biografia de Sigmund Freud, assista aos filmes “Freud além da alma” (1962) e “Um método perigoso” (2011), ou ainda ao documentário do History Channel “O jovem doutor Freud”.
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