Natura testa perfumes com IA e bases sob medida e antecipa nova era da beleza no Brasil

Natura começa a testar no Brasil perfumes personalizados com inteligência artificial e bases feitas sob medida em projeto acompanhado pela Anvisa.

A próxima revolução da beleza pode acontecer diante do consumidor, com cosméticos produzidos sob medida no próprio ponto de venda. A Natura iniciou no Brasil testes de tecnologias capazes de criar fragrâncias personalizadas com apoio de inteligência artificial e bases de maquiagem ajustadas ao tom e ao subtom de pele de cada pessoa.

A iniciativa faz parte do primeiro projeto-piloto de sandbox regulatório da Anvisa voltado a produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes personalizados. O modelo permite que soluções inovadoras sejam experimentadas por período limitado e sob acompanhamento da agência, antes da definição de uma regulamentação definitiva para esse novo formato de produção.

Sérum cosmético sendo aplicado com conta-gotas, imagem ilustrativa sobre personalização e tecnologia no mercado de beleza
Imagem ilustrativa: cosméticos e personalização ganham espaço na indústria da beleza. Foto: Mona Jain/Unsplash.

Natura aposta em cosméticos personalizados no Brasil

O projeto coloca a personalização no centro de uma mudança importante para o setor. Em vez de escolher apenas entre fórmulas, fragrâncias e tonalidades previamente fabricadas em grande escala, o consumidor poderá participar da definição de características do produto que será preparado para ele.

Na frente de perfumaria, a proposta usa uma plataforma conversacional para descobrir preferências, lembranças e sensações associadas aos aromas. A tecnologia analisa as respostas e trabalha com combinações de 54 acordes olfativos para sugerir até três fragrâncias exclusivas, que podem ser preparadas e envasadas na hora.

O uso de inteligência artificial nesse processo não significa que um algoritmo simplesmente “inventa” um perfume. A tecnologia funciona como uma camada de interpretação das preferências informadas pelo consumidor e auxilia na seleção das combinações disponíveis no sistema.

Base de maquiagem poderá ser produzida de acordo com cada pele

A segunda experiência mira um dos desafios históricos da maquiagem: encontrar uma base compatível com a tonalidade da pele. A máquina desenvolvida pela Natura realiza uma leitura de tom e subtom e combina automaticamente as cores necessárias para produzir uma base personalizada da linha Natura UNA.

Segundo a empresa, o produto pode ficar pronto em menos de uma hora. A ideia altera uma lógica tradicional do varejo de beleza, baseada em cartelas fixas de tonalidades, e aproxima a fabricação do momento da compra.

Se o modelo avançar depois da fase experimental, a tecnologia pode ser particularmente relevante em um mercado diverso como o brasileiro, no qual pequenas diferenças de profundidade e subtom podem dificultar a escolha de uma base pronta.

O que é o sandbox regulatório da Anvisa?

As experiências não representam uma liberação irrestrita para fabricar cosméticos personalizados. Elas acontecem dentro de um ambiente regulatório experimental da Anvisa, criado justamente para testar novas tecnologias sob condições específicas, temporárias e monitoradas.

De acordo com a agência, o projeto-piloto busca avaliar segurança, eficácia e rastreabilidade, além de produzir evidências que possam orientar uma futura regulamentação. A Anvisa prevê testar até cinco modelos inovadores de personalização em pontos físicos e, conforme o projeto participante, em plataformas próprias de comércio eletrônico.

Esse detalhe é importante porque fabricar um cosmético no momento da venda cria questões diferentes das encontradas na produção industrial convencional. Controle de ingredientes, identificação do lote ou preparação, rastreabilidade, higiene do equipamento e acompanhamento de eventuais eventos adversos precisam fazer parte da discussão.

Frasco de perfume em cenário de beleza, ilustrando a criação de fragrâncias personalizadas com inteligência artificial
Imagem ilustrativa de perfumaria. Foto: Edoardo Cuoghi/Unsplash.

Inteligência artificial chega à perfumaria

A presença da IA na criação da experiência olfativa mostra como a tecnologia está avançando para áreas antes associadas quase exclusivamente à sensibilidade humana. Na beleza, algoritmos já aparecem em recomendações de produtos, análise de pele, experimentação virtual de maquiagem e atendimento digital. Agora, a personalização da própria fórmula amplia esse campo.

Para as marcas, a mudança também pode gerar uma nova fonte de conhecimento sobre o consumidor. Preferências de textura, tonalidade, aroma e acabamento podem ajudar a entender demandas que nem sempre aparecem claramente nas vendas de produtos padronizados.

Esse potencial, porém, aumenta a importância de transparência sobre coleta e tratamento de dados. Quanto mais personalizada for a experiência, maior tende a ser a quantidade de informações necessárias para produzir recomendações relevantes.

Cosmético sob medida pode virar tendência?

A fase experimental será decisiva para responder essa pergunta. A própria Natura prevê acompanhar indicadores técnicos e a aceitação dos consumidores durante o período de testes. Os resultados poderão contribuir para o debate regulatório e para avaliar se o modelo tem condições de ganhar escala.

Existem desafios evidentes. Uma máquina de personalização precisa entregar consistência, segurança e velocidade suficientes para funcionar dentro da rotina do varejo. Também será necessário avaliar se consumidores estarão dispostos a esperar pela preparação e quanto valor atribuirão à exclusividade.

Por outro lado, a possibilidade de sair de uma loja com um perfume criado a partir das próprias preferências ou uma base produzida para um tom específico transforma a compra em experiência. Esse componente pode ser tão importante quanto o cosmético em si, especialmente em um mercado no qual lojas físicas buscam oferecer motivos para o consumidor ir além do e-commerce.

Skincare e bem-estar podem ser os próximos passos

Perfumaria e maquiagem são apenas o início da experiência anunciada pela Natura. A companhia aponta que os aprendizados do projeto podem abrir espaço para aplicações futuras da hiperpersonalização em outras categorias, incluindo skincare e bem-estar.

A expansão, entretanto, dependerá dos resultados dos testes e da evolução das regras brasileiras. O sandbox existe justamente para produzir evidências antes que tecnologias experimentais sejam incorporadas de maneira mais ampla ao mercado.

Futuro da beleza pode trocar a prateleira pelo produto individual

A combinação de inteligência artificial, equipamentos de produção compactos e novas formas de regulamentação indica uma transformação maior do que o lançamento de uma nova linha de maquiagem ou perfume. O que está em teste é a própria lógica de como um cosmético pode chegar ao consumidor.

Durante décadas, a indústria buscou ampliar catálogos para atender públicos diferentes. A hiperpersonalização propõe o caminho inverso: partir das características e preferências de uma pessoa para chegar ao produto.

Ainda é cedo para afirmar que máquinas de cosméticos sob medida se tornarão comuns nas lojas brasileiras. Mas o início dos testes coloca o país em uma discussão que deve ganhar força no mercado global de beleza: até onde tecnologia, dados e inteligência artificial conseguem transformar um produto de massa em uma experiência individual?


Fontes consultadas: informações divulgadas pela Natura em 6 de agosto de 2026 e documentação oficial do Projeto-Piloto do Ambiente Regulatório Experimental da Anvisa para produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes personalizados.

Créditos das imagens: imagens ilustrativas hospedadas pela Unsplash.

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