A tecnologia de RNA mensageiro acaba de alcançar um novo marco na medicina. A agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, a FDA, aprovou a primeira vacina contra a gripe sazonal produzida com a mesma plataforma tecnológica que ganhou projeção mundial durante a pandemia de Covid-19.
Batizada de mFLUSIVA e desenvolvida pela Moderna, a vacina foi autorizada para pessoas com 50 anos ou mais. A decisão abre uma nova etapa na disputa tecnológica para produzir vacinas contra influenza de maneira mais rápida e potencialmente mais adaptável às variantes que circulam a cada temporada.
Primeira vacina de mRNA contra gripe aprovada pela FDA
A aprovação da mFLUSIVA representa a primeira vez em que a FDA autoriza uma vacina de RNA mensageiro destinada especificamente à prevenção da gripe sazonal.
Até agora, grande parte das vacinas contra influenza disponíveis no mercado é produzida utilizando métodos tradicionais, incluindo cultivo do vírus em ovos embrionados de galinha ou outras plataformas de fabricação.
A tecnologia de mRNA adota uma estratégia diferente. Em vez de utilizar o próprio vírus da gripe para estimular o sistema imunológico, a vacina fornece ao organismo instruções moleculares para produzir temporariamente proteínas específicas relacionadas ao vírus.
Essas proteínas são reconhecidas pelo sistema imunológico, que passa a desenvolver uma resposta capaz de identificar o vírus caso ocorra uma exposição futura.
Como funciona a mFLUSIVA
A vacina utiliza moléculas de RNA mensageiro encapsuladas em nanopartículas lipídicas. Esse material contém as instruções necessárias para que células do organismo produzam versões de proteínas chamadas hemaglutininas, presentes na superfície dos vírus influenza.
A formulação avaliada pela FDA contém três moléculas de mRNA relacionadas a cepas dos grupos A/H1N1, A/H3N2 e influenza B da linhagem Victoria.
Após a vacinação, o sistema imunológico entra em contato com essas proteínas e desenvolve anticorpos e outras respostas de defesa.
O RNA mensageiro é posteriormente degradado pelo próprio organismo. Ele não altera o DNA das células e não precisa entrar no núcleo celular para realizar sua função.
Vacina apresentou resultado superior em estudo clínico
A decisão regulatória levou em consideração dados de estudos de fase 3 realizados com adultos a partir dos 50 anos.
Em um dos principais estudos apresentados pela Moderna, com participação de mais de 40 mil adultos, a vacina apresentou eficácia relativa aproximadamente 26,6% maior do que uma vacina contra gripe de dose padrão usada como comparação.
Isso não significa que a vacina elimine completamente o risco de influenza. A eficácia das vacinas contra gripe varia entre as temporadas porque depende, entre outros fatores, da correspondência entre as cepas selecionadas para a vacina e os vírus que efetivamente entram em circulação.
Por que a tecnologia de mRNA pode ser importante contra a gripe
Um dos maiores desafios da vacinação contra influenza é o tempo de produção.
Todos os anos, especialistas precisam estimar com antecedência quais cepas do vírus provavelmente circularão com maior intensidade durante a próxima temporada. A partir dessa previsão, os fabricantes iniciam a produção de milhões de doses.
Esse intervalo pode criar dificuldades quando o vírus sofre mudanças relevantes ou quando as cepas escolhidas inicialmente não correspondem perfeitamente às que passam a circular.
A plataforma de RNA mensageiro pode oferecer uma vantagem porque permite alterar as sequências utilizadas na vacina sem modificar completamente o processo industrial. Em teoria, isso pode facilitar atualizações mais rápidas da formulação.
A FDA também destacou em documentos técnicos que a fabricação baseada em mRNA evita determinadas alterações que podem ocorrer durante a produção de vacinas em ovos, conhecidas como mutações adaptativas ao ovo.
Quem poderá receber a nova vacina
Nos Estados Unidos, a mFLUSIVA foi aprovada para adultos com 50 anos ou mais.
Para pessoas entre 50 e 64 anos, a autorização recebeu aprovação tradicional.
Para adultos com 65 anos ou mais, a indicação foi concedida pelo mecanismo de aprovação acelerada, baseado em dados de resposta imunológica. A fabricante deverá continuar realizando estudos para confirmar o benefício clínico nessa faixa etária.
Segundo a Moderna, a expectativa é disponibilizar a vacina nos Estados Unidos durante a temporada de vírus respiratórios de 2026–2027.
A vacina de mRNA contra gripe já está disponível no Brasil?
Não. A decisão anunciada corresponde ao mercado norte-americano e foi tomada pela FDA.
Uma aprovação nos Estados Unidos não representa autorização automática para comercialização no Brasil.
Para que uma vacina seja vendida ou incorporada aos programas de vacinação brasileiros, o produto precisa passar pelos procedimentos regulatórios aplicáveis no país, incluindo análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A Moderna informou que também possui processos regulatórios relacionados à vacina em outros mercados internacionais, incluindo União Europeia, Canadá e Austrália.
O que muda em relação às vacinas tradicionais contra gripe?
A principal diferença está na plataforma tecnológica utilizada para apresentar os antígenos do vírus ao sistema imunológico.
Vacinas tradicionais contra influenza podem utilizar vírus inativados, proteínas produzidas por outras tecnologias ou processos baseados em ovos.
Na vacina de mRNA, a informação genética necessária para produzir temporariamente determinadas proteínas virais é entregue às células por meio de nanopartículas lipídicas.
Isso transforma a vacina em uma espécie de conjunto temporário de instruções biológicas, permitindo que o próprio organismo produza o alvo que será reconhecido pelo sistema imunológico.
Quais foram os efeitos colaterais observados?
Nos estudos clínicos, foram relatadas reações semelhantes às encontradas em outras campanhas de vacinação.
Entre os efeitos observados estão dor e sensibilidade no local da aplicação, fadiga, dor de cabeça, dores musculares, dores nas articulações, calafrios, náusea e febre.
Como ocorre com outros imunizantes, reações alérgicas graves podem acontecer, embora sejam consideradas raras.
A indicação individual de vacinação deve sempre considerar idade, histórico médico, alergias e orientações das autoridades de saúde.
RNA mensageiro começa a avançar além da Covid-19
A aprovação é particularmente relevante porque demonstra a expansão comercial da tecnologia de RNA mensageiro para além das vacinas contra Covid-19.
A plataforma já vinha sendo estudada há décadas, mas recebeu investimentos e desenvolvimento acelerado durante a pandemia.
Desde então, empresas e centros de pesquisa passaram a investigar aplicações contra diferentes doenças infecciosas e até em áreas como oncologia.
A Moderna, por exemplo, já possui produtos relacionados a Covid-19, vírus sincicial respiratório e agora influenza, além de desenvolver outros projetos baseados em mRNA.
Por que idosos são uma prioridade na vacinação contra influenza
A gripe costuma ser considerada uma doença simples, mas pode provocar complicações importantes, principalmente entre idosos e pessoas com condições clínicas preexistentes.
Dados utilizados pela FDA em sua avaliação apontam que adultos a partir dos 65 anos concentram parcela significativa das hospitalizações e mortes relacionadas à influenza nos Estados Unidos.
Existe ainda um desafio adicional: com o envelhecimento, o sistema imunológico pode responder de maneira menos intensa às vacinas, fenômeno conhecido como imunossenescência.
Por esse motivo, estratégias capazes de ampliar a resposta imunológica nessa população são constantemente avaliadas por pesquisadores e autoridades sanitárias.
O que acontece agora
A aprovação da primeira vacina de mRNA contra influenza não significa que as tecnologias tradicionais serão imediatamente substituídas.
A tendência é que diferentes plataformas continuem coexistindo enquanto autoridades acompanham dados de efetividade, segurança, custo, logística e capacidade de fabricação em condições reais.
O desenvolvimento, porém, representa uma mudança importante para a indústria de vacinas. Se a plataforma conseguir demonstrar capacidade de atualização mais rápida e desempenho consistente ao longo de diferentes temporadas, o mRNA poderá ganhar espaço também na vacinação anual contra gripe.
Depois de transformar a resposta mundial à Covid-19, a tecnologia começa agora um novo teste: provar que pode oferecer vantagens concretas também contra um vírus que muda todos os anos.
Fontes consultadas: Food and Drug Administration (FDA), documentos do Vaccines and Related Biological Products Advisory Committee, Moderna e Reuters. Informações verificadas em agosto de 2026.
Aviso: Esta matéria tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui orientação médica ou recomendações das autoridades sanitárias.
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